quinta-feira, 6 de junho de 2013

Mervyn King termina mandato sem mudanças na política

Na última reunião presidida por Mervyn King, o Banco da Inglaterra manteve a taxa de juros em 0,5% ao ano e o volume do programa de compras de ativos em 375 bilhões de libras. Esse resultado era amplamente esperado face à transição no comando da instituição que se dará no próximo mês.

A taxa de juros atingiu este, que é o menor nível histórico, em março de 2009, no auge da crise americana. Sob o comando de King, o Banco da Inglaterra avaliou que a política monetária pouco poderia fazer para impulsionar a economia naquele momento, fazendo com que o comitê de política monetária (MPC) anunciasse seu programa de compras de ativos de 200 bilhões de libras, a maior parte da dívida do governo do Reino Unido (Gilts). O programa seria ampliado mais três vezes diante do recrudescimento da crise na zona do euro: em outubro de 2011 (75 bilhões de libras), em fevereiro de 2012 (50 bilhões de libras) e em julho de 2012 (50 bilhões de libras). Também em julho de 2012, foi anunciado o “Funding for Lending Scheme (FLS)”, um programa que objetiva incrementar a concessão de empréstimos para a economia real do Reino Unido, que posteriormente foi prorrogado até janeiro de 2015.

A carreira de Mervyn King no Banco da Inglaterra começou em 1991 como economista-chefe e diretor não executivo. Em 1997 passou a ser membro do comitê de política monetária (MPC) sendo alçado à presidência do MPC em julho de 2003. Será substituído pelo canadense Mark Carney, atual presidente do Banco do Canadá e ex-executivo da área de investimentos do Goldman Sachs.

Muitas mudanças são esperadas a partir da posse de Carney, inclusive um aumento substancial no volume de títulos públicos (Gilts) comprados no âmbito do programa. King, nos últimos meses deu sinais de que apoia a ideia ao ser um dos membros do comitê a votar pela ampliação de 25 bilhões de libras, juntamente com os diretores Paul Fisher e David Miles, portanto um terço do total de membros votantes do banco central. Sua posição, explícita em sua última entrevista à rede “Sky News” em 20 de maio é clara: “é preciso fazer mais pela economia”, acrescentando que a recuperação insinuada em indicadores recentes — como os índices de gerentes de compras (PMI) e mesmo o resultado do PIB do primeiro trimestre (0,3%) — “é apenas modesta e nós certamente não podemos estar satisfeitos com isso”. Apesar da revisão das projeções para o Produto Interno Bruto levemente para cima nos próximos anos, o BC britânico reiterou, no último relatório de inflação, que a recuperação prevista será fraca para os padrões históricos.

Outra questão que vem balizando as expectativas por mudanças no arcabouço de política monetária a partir da posse de Carney é a resistência da inflação acima da meta de 2%, embora tenha havido alguma descompressão dos índices nos meses recentes. Ainda assim, o CPI gira em 2,4%, o que impede, em tese, grandes voos de flexibilização monetária em função do regime de metas de inflação. Mas Carney é, sabidamente, defensor de mais flexibilidade na condução do regime de metas em um ambiente de rigidez inflacionária no sentido de não haver prejuízo exagerado à atividade econômica. Mudanças, então, podem mesmo vir em breve, como a instituição de uma meta para o PIB nominal, uma das apostas mais cotadas entre os analistas.

E faz sentido quando se recorda que em abril, na apresentação o orçamento de 2013, o ministro da finanças George Osborne, sugeriu que o Banco da Inglaterra discutisse mudanças no arcabouço da política monetária e que tais propostas fossem publicadas no relatório de inflação de agosto. Entre suas propostas, está a adoção de "parâmetros" (forward guidance) de indicadores econômicos na orientação da política monetária, ou seja, a instituição de um mandato duplo para o BC.

Outras hipóteses aventadas foram definir metas para o hiato do produto, o PIB real ou PIB nominal.

Em linhas gerais, o que Osborne propôs a Carney — e há certa convicção que este foi consultado na ocasião — é a instituição de um mandato duplo para o Banco da Inglaterra, nos moldes do Federal Reserve. A conferir.