quinta-feira, 6 de junho de 2013

Cresce preocupação do Copom com indexação e piora de expectativas

A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) mostrou um Banco Central mais preocupado com a capacidade de a inflação se realimentar, tanto por mecanismos de indexação quanto pela deterioração das expectativas dos agentes econômicos, o que também costuma estimular reajustes de preços com base em índices passados. Ambos foram apontadas no parágrafo que justifica mais diretamente a decisão de elevar de novo, e em ritmo mais forte, a taxa básica de juros brasileira.

Os mecanismos de reajuste automático de preços e as expectativas, sejam boas ou ruins, são fatores sempre considerados no balanço de riscos inflacionários do BC. Desta vez, no entanto, mereceram um destaque que, principalmente no caso da indexação, não se via há muito tempo nas atas do Copom.

O fato de a inflação estar alta e disseminada também foi apontado. Mas isso já estava no trecho principal do documento que justificou o início do atual ciclo de aperto monetário, em abril, quando a Selic subiu 0,25 ponto percentual após dez cortes sucessivos e alguns meses de estabilidade.

Num contexto de inflação elevada e dispersa, o maior temor com os riscos relativos à indexação e à piora na percepção dos agentes econômicos levou o comitê a aumentar o juro básico em 0,50 ponto percentual desta vez, para 8% ao ano. Os diretores do BC entenderam que o quadro precisava ser revertido com a “devida tempestividade”, tendo em vista que a persistência desse processo causaria danos à tomada de decisões sobre consumo e investimentos.

“O Copom considera que o nível elevado de inflação e a dispersão de aumentos de preços – a exemplo dos recentemente observados – contribuem para que a inflação mostre resistência. Nesse contexto, inserem-se também os mecanismos formais e informais de indexação e a piora na percepção dos agentes econômicos sobre a própria dinâmica da inflação”, diz o parágrafo 28 da ata. “Tendo em vista os danos que a persistência desse processo causaria à tomada de decisões sobre consumo e investimentos, faz-se necessário que, com a devida tempestividade, o mesmo seja revertido. Para tanto, o Comitê entende ser apropriada a intensificação do ritmo de ajuste das condições monetárias ora em curso.”

Com o novo aumento da Selic, o BC acredita que contribui para colocar a inflação em declínio e assegurar que ela continue caindo em 2014. O Copom avalia que, no curto prazo, a inflação medida em 12 meses ainda apresenta tendência de elevação, pois o balanço de riscos para o cenário prospectivo se apresenta “desfavorável”. O colegiado voltou a defender que, em momentos assim, a política monetária deve se manter “especialmente vigilante” para minimizar riscos de que níveis elevados de inflação persistam no horizonte relevante de tempo.

De março para abril, a variação acumulada em 12 meses pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) recuou de 6,59% para 6,49%. Esse ainda é um patamar alto e está quase no limite superior (6,5%) do intervalo de tolerância da meta estipulada pelo governo, cujo centro é 4,5%. Nesta sexta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgará o dado de maio.

Mais uma vez, o Copom destacou a “estreita” margem de ociosidade no mercado de trabalho. Mostrou-se preocupado com o risco de que, nessas circunstâncias, sejam concedidos aumentos salariais incompatíveis com o crescimento da produtividade das empresas. Na sua leitura, apesar dos sinais de moderação, “a dinâmica salarial permanece originando pressões inflacionárias de custos”.

Câmbio

Ao fazer uma avaliação sobre a taxa de câmbio, o Copom viu evidências “de maior volatilidade e de tendência de apreciação do dólar” frente a outras moedas. A ata lembra que, entre as duas últimas reuniões do comitê, o dólar se valorizou diante da expectativa de antecipação da retirada de estímulos monetários por parte do Federal Reserve e pela redução da taxa básica de juros na zona do euro. Ao mesmo tempo, o documento destaca “evidências de acomodação dos preços das commodities nos mercados internacionais”.

A ata do Copom chama atenção também para o fato de a demanda doméstica estar aumentando em ritmo superior ao do Produto Interno Bruto (PIB). “A absorção interna vem se expandindo a taxas maiores do que as de crescimento do PIB”, diz a ata.

A demanda doméstica da economia “tende a se apresentar robusta”, entre outros fatores, porque ainda não acabou o efeito das reduções sofridas pela Selic até outubro do ano passado. Mesmo com a nova elevação da taxa, a demanda “será impactada pelos efeitos remanescentes das ações de política implementadas em 2012”, afirma o texto.

Na avaliação do colegiado, a parcela doméstica da demanda agregada também “tende a ser beneficiada” pelos efeitos da política fiscal, que tem sido expansionista.

A despeito das limitações no campo da oferta, o comitê considera que o ritmo da economia será mais intenso neste e no próximo ano e explica que isso significa trajetória de crescimento mais alinhada com o crescimento potencial do PIB.

Por outro lado, o Comitê ainda vê o “frágil” cenário internacional como um “fator de contenção da demanda agregada” da economia brasileira. Foi reiterada também a avaliação de que “os riscos para a estabilidade financeira global permanecem elevados”.