A ata do Copom, divulgada nesta manhã, faz menções apenas pontuais à alta da cotação do dólar, descrevendo-a sobretudo como um fator de risco. A intensificação do aperto da política monetária é justificada, sobretudo, pela inflação alta, disseminada, resistente, que alimenta os mecanismos formais e informais de indexação e leva à deterioração das expectativas. Se esse quadro já justifica uma alta mais forte de juros, o que dizer do dólar mais valorizado?
No cenário de referência de projeção, o Banco Central conta com a manutenção do dólar na cotação de R$ 2,05. No cenário de mercado, o BC diz que usa a trajetória do dólar esperada pelos analistas privados às vésperas da reunião do Copom, que estava em R$ 2,07 no período.
A ata do Copom faz apenas uma menção direta ao dólar, num parágrafo em que discute riscos no cenário internacional. O documento destaca as evidências “de maior volatilidade e de tendência de apreciação do dólar dos Estados Unidos”. A ata suprime a menção dos documentos anteriores sobre maior moderação nos preços dos ativos financeiros, ou seja, o dólar.
A justificativa para a decisão de intensificar o aperto monetário é apresentada no parágrafo 28. Nele, não é mencionado o dólar: “O Copom considera que o nível elevado de inflação e a dispersão de aumentos de preços – a exemplo dos recentemente observados – contribuem para que a inflação mostre resistência. Nesse contexto, inserem-se também os mecanismos formais e informais de indexação e a piora na percepção dos agentes econômicos sobre a própria dinâmica da inflação”, afirma a ata do Copom.
Que segue: “Tendo em vista os danos que a persistência desse processo causaria à tomada de decisões sobre consumo e investimentos, faz-se necessário que, com a devida tempestividade, o mesmo seja revertido. Para tanto, o Comitê entende ser apropriada a intensificação do ritmo de ajuste das condições monetárias ora em curso.”
Sobre o dólar, é importante também esse trecho da ata em que o Copom diz que o crescimento da demanda doméstica não cabe no PIB: “De modo geral, a absorção interna vem se expandido a taxas maiores do que as de crescimento do PIB e tende a ser beneficiada pelos efeitos de ações de política fiscal, pela expansão da oferta de crédito para pessoas físicas e empresas, e pelo programa de concessão de serviços públicos, entre outros fatores.” Dólar mais forte, em tese, significa menos espaço para atender a demanda doméstica por meio de importações líquidas.
Pela narrativa apresentada na ata, portanto, a alta do dólar é contemplada sobretudo como um fator de risco e não, pelo menos de forma explícita, como um dos fatores que levaram à intensificação do ciclo de aperto monetário.
Quanto tempo será mantido esse ritmo mais intenso de aperto monetário? Na ata, o Copom afirma sobretudo que será necessário que “seja revertido” o processo descrito acima. Ou seja, inflação alta, disseminada e resistente que alimenta os mecanismos de indexação da economia e leva a deterioração das expectativas.
Uma informação importante da ata é que o Copom não está satisfeito com o recuo ocorrido até agora no índice de dispersão na inflação, que baixou de cerca de 75% para pouco mais de 60%. O mercado chegou a festejar esse patamar mais baixo. Está nesse trecho a insatisfação com o patamar atual de dispersão: “A dispersão de aumentos de preços — a exemplo dos recentemente observados — contribuem para que a inflação mostre certa resistência.”
Fica claro na ata que uma das preocupações do Copom é domar as expectativas inflacionárias. Mas, pelo documento, está também claro que não é só isso que causa a inflação alta.
Pela primeira vez, a ata do Copom faz uma descrição mais explícita de um processo de inflação de salários. O Copom vinha se referindo, nos documentos anteriores, aos riscos de aumentos salariais acima da produtividade. Agora, foi mais direto: “Não obstante sinais de moderação, o Comitê avalia que a dinâmica salarial permanece originando pressões inflacionárias de custos.”
Não foi esclarecido na ata, porém, se o Copom acha que a reversão do processo inflacionário depende de reduzir a pressão no mercado de trabalho via aumento de desemprego.
Um trecho da ata que merece atenção é aquele em que o Copom diz que a economia cresce mais alinhada ao seu potencial. “O cenário central contempla ritmo de atividade doméstica mais intenso neste e no próximo ano, ou seja, uma trajetória de crescimento, no horizonte relevante para a política monetária, mais alinhada com o crescimento potencial”. Note que o diagnóstico de crescimento alinhado ao potencial é feito mesmo depois da divulgação de um PIB abaixo das expectativas no primeiro trimestre, de 0,6%.
Ainda que de forma suave, a ata subscreve diagnóstico sobre limites no campo da oferta feito pelo diretor de política econômica do BC, Carlos Hamilton de Araújo, em evento do banco Itaú em fins de abril. Mas o Copom não indica, pelo menos de forma clara, nenhuma necessidade de agir para corrigir eventuais desequilíbrios.
Em resumo, a ata faz um diagnóstico mais duro do cenário inflacionário, de modo a dar sustentação a uma intensificação do aperto monetário, sinalizando que ele será um processo que não se resume a apenas um movimento. E, nesse cálculos, a alta do dólar era apenas um fator de risco — que, caso se materialize, provavelmente exigirá a readequação da política monetária.