Caro leitor, se você é investidor ou tem recursos para aplicar, suponho que esteja preocupado. Não é para menos: um semestre que começou com perspectivas positivas - tanto para o crescimento do lucro das empresas quanto para a inflação - termina de maneira totalmente diferente e com expectativas muito indefinidas. E então? O que fazer neste momento? Certamente as respostas não são simples nem as alternativas são isentas de riscos. No entanto, há oportunidades.
Em primeiro lugar, vale a pena revisar o que está acontecendo, traçar novas perspectivas e reavaliar as possibilidades. Nesse sentido, tão importante quanto as alternativas em si são as formas de se aplicar ou redistribuir os investimentos. Esses elementos lhe ajudarão a reduzir a ansiedade natural do momento.
Nas últimas semanas, é possível dizer que o mercado financeiro brasileiro passou pela "tempestade perfeita": já nos primeiros meses do ano o baixo crescimento econômico e as pressões inflacionárias levaram a seguidas revisões - para baixo - das perspectivas de lucros para as empresas. Ao longo desses meses, o ceticismo de investidores estrangeiros em relação à política econômica reduziu os fluxos de recursos. Foi então que a mudança de tom do Banco Central provocou mudanças nas expectativas de juros e trouxe, pela primeira vez em anos, redução importante do estoque de riqueza em ativos financeiros.
A esse ambiente somaram-se as perspectivas de fim próximo do afrouxamento monetário americano, com consequente alta das taxas dos títulos e mudanças no fluxo cambial global, aumentando a demanda por dólares americanos. Para completar, as manifestações recentes no Brasil também não contribuem para aumentar o fluxo. Essa combinação afetou praticamente todos os ativos: renda fixa, ações, moedas e - com menos visibilidade - o mercado imobiliário. Mesmo no caso de investimentos internacionais, apenas aplicações de curto prazo se beneficiaram da valorização da moeda americana. Dadas as circunstâncias, mesmo com o ajuste recente, novos impactos negativos ainda são possíveis.
Por outro lado, as fontes de incerteza e oscilações trazem oportunidades: se confirmada, a recuperação da economia americana beneficiará o crescimento local direta e indiretamente, pela influência positiva sobre outros países com os quais as empresas brasileiras também negociam. Da mesma forma, à medida que o Banco Central adote postura mais firme, títulos prefixados e atrelados à inflação apresentarão prêmios há muito não vistos.
Assim, a primeira sugestão é aproveitar a virada de semestre e reavaliar suas disponibilidades, seus objetivos e sua tolerância às oscilações: há recursos disponíveis para ficarem investidos por três anos ou mais? Se sim, aproveite o momento para revisar as suas reações a flutuações indesejadas: você já passou por essa situação? Qual foi sua sensação? Um bom exercício é considerar uma eventual desvalorização substancial sobre uma parte de seus investimentos e calcular o impacto sobre o total. Se for tolerável, considere nos próximos meses oportunidades como ações, fundos de ações, títulos de longo prazo prefixados ou indexados à inflação.
Por outro lado, se você tem compromissos já identificados nos próximos um a dois anos, se for ansioso por acompanhar suas aplicações diariamente e não tolerar desvalorizações de quaisquer naturezas - mesmo que temporariamente - então é mais adequado restringir suas aplicações a alternativas previsíveis e pouco sujeitas a flutuações. Títulos indexados às taxas de juros e fundos DI embutem rendimentos estáveis, mesmo em intervalos curtos e instáveis.
Uma alternativa intermediária é optar por fundos multimercados: trata-se de fundos de gestão livre, que buscam os melhores retornos em quaisquer mercados. Essa estratégia tende a apresentar comportamento intermediário, com potenciais superiores aos investimentos de baixo risco e com padrão de oscilações inferior às alternativas relacionadas a ações ou títulos de longo prazo.
Caso a sugestão de aproveitar as oportunidades se aplique a você, vale considerar mais um ponto: diz a máxima de investimentos que o segredo "é comprar na baixa e vender na alta". Como na minha opinião isso é e continuará sendo um segredo, é melhor considerar alternativas. Comparações entre rendimentos mensais de juros (CDI), variação acumulada da inflação (medida pelo IPCA) e valorização do mercado acionário (Ibovespa) desde o início do Plano Real (julho/94) permitem algumas conclusões interessantes: no longo prazo (em janelas móveis de cinco anos), a valorização do Ibovespa supera a inflação em quase 80% das vezes. Já contra os juros o índice de ações vence somente em 43% das ocasiões nessa mesma base de comparação. Por outro lado, a variação mensal do Ibovespa supera o CDI em 51% das vezes.
A variação trimestral mostra-se ainda mais bem sucedida, superando os juros e inflação em 53% e 57% das ocasiões, respectivamente. O histórico mostra quase metade dos meses com variações expressivas (quedas piores do que 5% ou altas superiores a 5%) no índice de ações. Ou seja, embora o risco no curto prazo seja comprovado, os investimentos em mercado acionário têm grandes chances de superar a inflação no longo prazo. Além disso, aplicações feitas regularmente e rebalanceadas em períodos de exagero (euforia e depressão) têm maior probabilidade de também vencer o CDI.
Portanto, na falta de uma bola de cristal, conhecer suas possibilidades e limitações; ter disciplina e regularidade nos investimentos efetuados e não se desviar de seus objetivos em períodos de euforia ou de intensa preocupação aumentam as chances de sucesso nos investimentos.