sexta-feira, 14 de junho de 2013

Perspectivas

A baixa volatilidade dos mercados financeiros globais nos últimos trimestres teve um pano de fundo muito claro – a manutenção de um ritmo moderado de crescimento da atividade econômica, a diminuição dos riscos de cauda, em especial da Europa, e a continuidade de uma estratégia de política monetária extremamente acomodatícia por parte dos principais bancos centrais. Nas últimas semanas, um dos pilares desse cenário foi questionado, tendo em vista a sinalização por parte do FED de que o ritmo de expansão do QE pode ser reavaliado nos próximos meses. Ainda que isto implique, a princípio, apenas uma redução da acomodação marginal da política monetária, os sinais do FED foram suficientes para uma significativa alta das taxas de juros globais, em especial as de prazos mais longos. Com esta reprecificação dos prêmios de risco e a consequente alta das volatilidades, os mercados emergentes tem sido severamente afetados. Nos últimos anos, com a manutenção das taxas de juros dos países desenvolvidos em patamares historicamente muito baixos, houve uma forte procura por títulos de países emergentes. Com o questionamento dos mercados sobre as mudanças nas atuais condições de liquidez, as classes de ativos que foram mais beneficiadas com os fluxos tendem a sofrer mais a desalavancagem das posições. Ainda que o Brasil tenha implementado controles de capital que evitaram fluxos maciços nos últimos anos para renda fixa, o movimento de desvalorização das taxas de câmbio e altas das taxas de juros de mercado tem sido bastante sincronizado entre países emergentes como África do Sul, México e Turquia. No caso da economia brasileira, em se confirmando um cenário menos favorável de financiamento externo, conviveremos por mais tempo com taxas de juros mais altas e uma taxa de câmbio mais desvalorizada.

A economia americana, por sua vez, permanece como o destaque positivo entre as economias desenvolvidas, ainda que o PIB do segundo trimestre do ano deva ter uma desaceleração em relação ao ritmo de crescimento verificado no trimestre anterior. A aceleração do efeito contracionista da política fiscal e os ajustes no estoque justificam parte dessa suave perda de momentum, ainda que o crescimento médio anualizado do ano siga em torno de 2%. Ao longo dos próximos meses, à medida que a política fiscal ficar menos contracionista e o mercado de trabalho continuar melhorando gradualmente, o extraordinário grau de acomodação da política monetária deverá será reavaliado pelo FED. Setembro parece ser o caso-base para uma redução gradual na expansão do balanço da autoridade monetária. A evolução das condições financeiras e do mercado de trabalho, no entanto, serão variáveis importantes para o timing e a intensidade das mudanças na política monetária.

Na Ásia, as mudanças no regime de política econômica no Japão continuam trazendo importantes repercussões, tanto no ciclo econômico como nos ativos japoneses, que tem tido uma volatilidade muito acima dos padrões recentes. Um crescimento potencial mais robusto e sustentável no médio prazo, no entanto, só virá se o novo governo se mostrar agressivo também no lado das reformas estruturais, compensando em parte a adversa realidade demográfica do país. Na China, a fraqueza das exportações a desaceleração do investimento industrial, em um ambiente de excesso de capacidade e pressões deflacionárias, levaram a uma nova rodada de revisões baixistas para as projeções de PIB do ano, agora mais próximas de 7,5%. O novo governo chinês, por sua vez, parece muito mais comprometido com a agenda de reformas estruturais e não parece ter o mesmo apetite por estímulos cíclicos de curto prazo. No médio prazo, a economia chinesa inevitavelmente terá que fazer uma transição para um crescimento mais balanceado e menos dependente do investimento, o que trará implicações para a demanda de commodities. Em relação à Zona do Euro, acreditamos na continuidade de um cenário de estagnação prolongada sem rupturas.

No que diz respeito à economia brasileira, as mudanças no cenário externo complicam ainda mais um ambiente econômico que já era desfavorável. Além do crescimento medíocre e da inflação resistente e elevada, teremos que lidar com fontes de financiamento externo mais instáveis nos próximos meses. O Banco Central, por sua vez, acelerou o ritmo de alta das taxas de juros e parece ensaiar um retorno para o regime de metas de inflação. Continuamos acreditando que o centro da meta não é um objetivo da política monetária e, consistente com essa avaliação, continuamos trabalhando com um ajuste monetário gradual. Na nossa avaliação, este ciclo de aperto terá como objetivo principal ancorar as expectativas de inflação em um patamar próximo a 5,5%. Para tal, acreditamos que a Selic terminal deve ficar entre 9% e 9,5%. Um aperto da política fiscal poderia aliviar uma parte desse ajuste, mas não atribuímos a esse evento uma probabilidade razoável considerando a manutenção da atual equipe econômica. No mercado de câmbio, acreditamos que o banco central continuará intervindo, principalmente com os leilões de swaps, tendo em vista que não há espaço inflacionário para uma depreciação adicional importante da taxa de câmbio. No médio prazo, a velocidade de deterioração do déficit em conta corrente, a maior instabilidade dos fluxos de capitais e a evolução dos termos de trocas devem justificar uma taxa de câmbio efetiva mais depreciada.

No mercado de renda variável, permanecemos com uma limitada exposição direcional. A deterioração do ambiente macroeconômico aliada a uma variação ainda insuficiente nos preços da maioria dos ativos ainda não nos motiva a tomar posições direcionais mais relevantes.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Cresce preocupação do Copom com indexação e piora de expectativas

A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) mostrou um Banco Central mais preocupado com a capacidade de a inflação se realimentar, tanto por mecanismos de indexação quanto pela deterioração das expectativas dos agentes econômicos, o que também costuma estimular reajustes de preços com base em índices passados. Ambos foram apontadas no parágrafo que justifica mais diretamente a decisão de elevar de novo, e em ritmo mais forte, a taxa básica de juros brasileira.

Os mecanismos de reajuste automático de preços e as expectativas, sejam boas ou ruins, são fatores sempre considerados no balanço de riscos inflacionários do BC. Desta vez, no entanto, mereceram um destaque que, principalmente no caso da indexação, não se via há muito tempo nas atas do Copom.

O fato de a inflação estar alta e disseminada também foi apontado. Mas isso já estava no trecho principal do documento que justificou o início do atual ciclo de aperto monetário, em abril, quando a Selic subiu 0,25 ponto percentual após dez cortes sucessivos e alguns meses de estabilidade.

Num contexto de inflação elevada e dispersa, o maior temor com os riscos relativos à indexação e à piora na percepção dos agentes econômicos levou o comitê a aumentar o juro básico em 0,50 ponto percentual desta vez, para 8% ao ano. Os diretores do BC entenderam que o quadro precisava ser revertido com a “devida tempestividade”, tendo em vista que a persistência desse processo causaria danos à tomada de decisões sobre consumo e investimentos.

“O Copom considera que o nível elevado de inflação e a dispersão de aumentos de preços – a exemplo dos recentemente observados – contribuem para que a inflação mostre resistência. Nesse contexto, inserem-se também os mecanismos formais e informais de indexação e a piora na percepção dos agentes econômicos sobre a própria dinâmica da inflação”, diz o parágrafo 28 da ata. “Tendo em vista os danos que a persistência desse processo causaria à tomada de decisões sobre consumo e investimentos, faz-se necessário que, com a devida tempestividade, o mesmo seja revertido. Para tanto, o Comitê entende ser apropriada a intensificação do ritmo de ajuste das condições monetárias ora em curso.”

Com o novo aumento da Selic, o BC acredita que contribui para colocar a inflação em declínio e assegurar que ela continue caindo em 2014. O Copom avalia que, no curto prazo, a inflação medida em 12 meses ainda apresenta tendência de elevação, pois o balanço de riscos para o cenário prospectivo se apresenta “desfavorável”. O colegiado voltou a defender que, em momentos assim, a política monetária deve se manter “especialmente vigilante” para minimizar riscos de que níveis elevados de inflação persistam no horizonte relevante de tempo.

De março para abril, a variação acumulada em 12 meses pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) recuou de 6,59% para 6,49%. Esse ainda é um patamar alto e está quase no limite superior (6,5%) do intervalo de tolerância da meta estipulada pelo governo, cujo centro é 4,5%. Nesta sexta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgará o dado de maio.

Mais uma vez, o Copom destacou a “estreita” margem de ociosidade no mercado de trabalho. Mostrou-se preocupado com o risco de que, nessas circunstâncias, sejam concedidos aumentos salariais incompatíveis com o crescimento da produtividade das empresas. Na sua leitura, apesar dos sinais de moderação, “a dinâmica salarial permanece originando pressões inflacionárias de custos”.

Câmbio

Ao fazer uma avaliação sobre a taxa de câmbio, o Copom viu evidências “de maior volatilidade e de tendência de apreciação do dólar” frente a outras moedas. A ata lembra que, entre as duas últimas reuniões do comitê, o dólar se valorizou diante da expectativa de antecipação da retirada de estímulos monetários por parte do Federal Reserve e pela redução da taxa básica de juros na zona do euro. Ao mesmo tempo, o documento destaca “evidências de acomodação dos preços das commodities nos mercados internacionais”.

A ata do Copom chama atenção também para o fato de a demanda doméstica estar aumentando em ritmo superior ao do Produto Interno Bruto (PIB). “A absorção interna vem se expandindo a taxas maiores do que as de crescimento do PIB”, diz a ata.

A demanda doméstica da economia “tende a se apresentar robusta”, entre outros fatores, porque ainda não acabou o efeito das reduções sofridas pela Selic até outubro do ano passado. Mesmo com a nova elevação da taxa, a demanda “será impactada pelos efeitos remanescentes das ações de política implementadas em 2012”, afirma o texto.

Na avaliação do colegiado, a parcela doméstica da demanda agregada também “tende a ser beneficiada” pelos efeitos da política fiscal, que tem sido expansionista.

A despeito das limitações no campo da oferta, o comitê considera que o ritmo da economia será mais intenso neste e no próximo ano e explica que isso significa trajetória de crescimento mais alinhada com o crescimento potencial do PIB.

Por outro lado, o Comitê ainda vê o “frágil” cenário internacional como um “fator de contenção da demanda agregada” da economia brasileira. Foi reiterada também a avaliação de que “os riscos para a estabilidade financeira global permanecem elevados”.

Dólar entrou nos cálculos do Copom apenas como um fator de risco

A ata do Copom, divulgada nesta manhã, faz menções apenas pontuais à alta da cotação do dólar, descrevendo-a sobretudo como um fator de risco. A intensificação do aperto da política monetária é justificada, sobretudo, pela inflação alta, disseminada, resistente, que alimenta os mecanismos formais e informais de indexação e leva à deterioração das expectativas. Se esse quadro já justifica uma alta mais forte de juros, o que dizer do dólar mais valorizado?

No cenário de referência de projeção, o Banco Central conta com a manutenção do dólar na cotação de R$ 2,05. No cenário de mercado, o BC diz que usa a trajetória do dólar esperada pelos analistas privados às vésperas da reunião do Copom, que estava em R$ 2,07 no período.

A ata do Copom faz apenas uma menção direta ao dólar, num parágrafo em que discute riscos no cenário internacional. O documento destaca as evidências “de maior volatilidade e de tendência de apreciação do dólar dos Estados Unidos”. A ata suprime a menção dos documentos anteriores sobre maior moderação nos preços dos ativos financeiros, ou seja, o dólar.

A justificativa para a decisão de intensificar o aperto monetário é apresentada no parágrafo 28. Nele, não é mencionado o dólar: “O Copom considera que o nível elevado de inflação e a dispersão de aumentos de preços – a exemplo dos recentemente observados – contribuem para que a inflação mostre resistência. Nesse contexto, inserem-se também os mecanismos formais e informais de indexação e a piora na percepção dos agentes econômicos sobre a própria dinâmica da inflação”, afirma a ata do Copom.

Que segue: “Tendo em vista os danos que a persistência desse processo causaria à tomada de decisões sobre consumo e investimentos, faz-se necessário que, com a devida tempestividade, o mesmo seja revertido. Para tanto, o Comitê entende ser apropriada a intensificação do ritmo de ajuste das condições monetárias ora em curso.”

Sobre o dólar, é importante também esse trecho da ata em que o Copom diz que o crescimento da demanda doméstica não cabe no PIB: “De modo geral, a absorção interna vem se expandido a taxas maiores do que as de crescimento do PIB e tende a ser beneficiada pelos efeitos de ações de política fiscal, pela expansão da oferta de crédito para pessoas físicas e empresas, e pelo programa de concessão de serviços públicos, entre outros fatores.” Dólar mais forte, em tese, significa menos espaço para atender a demanda doméstica por meio de importações líquidas.

Pela narrativa apresentada na ata, portanto, a alta do dólar é contemplada sobretudo como um fator de risco e não, pelo menos de forma explícita, como um dos fatores que levaram à intensificação do ciclo de aperto monetário.

Quanto tempo será mantido esse ritmo mais intenso de aperto monetário? Na ata, o Copom afirma sobretudo que será necessário que “seja revertido” o processo descrito acima. Ou seja, inflação alta, disseminada e resistente que alimenta os mecanismos de indexação da economia e leva a deterioração das expectativas.

Uma informação importante da ata é que o Copom não está satisfeito com o recuo ocorrido até agora no índice de dispersão na inflação, que baixou de cerca de 75% para pouco mais de 60%. O mercado chegou a festejar esse patamar mais baixo. Está nesse trecho a insatisfação com o patamar atual de dispersão: “A dispersão de aumentos de preços — a exemplo dos recentemente observados — contribuem para que a inflação mostre certa resistência.”

Fica claro na ata que uma das preocupações do Copom é domar as expectativas inflacionárias. Mas, pelo documento, está também claro que não é só isso que causa a inflação alta.

Pela primeira vez, a ata do Copom faz uma descrição mais explícita de um processo de inflação de salários. O Copom vinha se referindo, nos documentos anteriores, aos riscos de aumentos salariais acima da produtividade. Agora, foi mais direto: “Não obstante sinais de moderação, o Comitê avalia que a dinâmica salarial permanece originando pressões inflacionárias de custos.”

Não foi esclarecido na ata, porém, se o Copom acha que a reversão do processo inflacionário depende de reduzir a pressão no mercado de trabalho via aumento de desemprego.

Um trecho da ata que merece atenção é aquele em que o Copom diz que a economia cresce mais alinhada ao seu potencial. “O cenário central contempla ritmo de atividade doméstica mais intenso neste e no próximo ano, ou seja, uma trajetória de crescimento, no horizonte relevante para a política monetária, mais alinhada com o crescimento potencial”. Note que o diagnóstico de crescimento alinhado ao potencial é feito mesmo depois da divulgação de um PIB abaixo das expectativas no primeiro trimestre, de 0,6%.

Ainda que de forma suave, a ata subscreve diagnóstico sobre limites no campo da oferta feito pelo diretor de política econômica do BC, Carlos Hamilton de Araújo, em evento do banco Itaú em fins de abril. Mas o Copom não indica, pelo menos de forma clara, nenhuma necessidade de agir para corrigir eventuais desequilíbrios.

Em resumo, a ata faz um diagnóstico mais duro do cenário inflacionário, de modo a dar sustentação a uma intensificação do aperto monetário, sinalizando que ele será um processo que não se resume a apenas um movimento. E, nesse cálculos, a alta do dólar era apenas um fator de risco — que, caso se materialize, provavelmente exigirá a readequação da política monetária.

BCE indica juro negativo à frente

O Banco Central Europeu (BCE) manteve a taxa básica de juros (refi) em 0,5% ao ano, a taxa de empréstimos a bancos comerciais ("marginal lending facility") em 1,0% e a taxa de depósitos em zero. Essa decisão era amplamente esperada após a redução de 25 pontos base na taxa básica e de 50 pontos base na taxa de empréstimos realizadas na reunião anterior. Das 12 instituições financeiras estrangeiras pesquisadas, 11 tinham a avaliação de que seria prematuro o anúncio de novas medidas hoje, posição ratificada pela fala do presidente da instituição, Mario Draghi, na conferência de imprensa.

Uma novidade interessante que pode vir, insinuada pelo presidente do BCE, é que o comitê de política monetária está “refletindo” sobre a instituição de um “forward guidance”, ou seja, uma orientação (temporal, qualitativa ou quantitativa) para a política monetária. Tal mudança, na opinião de casas consultadas como Morgan Stanley e o BNP Paribas, poderia reforçar a orientação da política, algo que já vem sendo feito sutilmente por frases como “como "o BCE manterá a política monetária acomodatícia pelo tempo que for necessário”. Mas não houve detalhamento algum dessa perspectiva.

Por isso e por muito mais, as revisões das projeções para o PIB e inflação foram acompanhas com lupa. O crescimento esperado piorou neste ano (de -0,5% para -0,6%), mas melhorou para 2014 (de 0,8% para 1,1%). A variação de preços, por sua vez, foi reduzida de 1,6% para 1,4% em 2013 e manteve-se em 1,3% no ano que vem.

No cômputo geral, o cenário prospectivo desenhado pelo BCE dá conta de um crescimento pífio e uma inflação bem abaixo da meta de 2%, o que, por si só, coloca combustível na fogueira das apostas por mais medidas de flexibilização. O diagnóstico de quase paralisia no setor creditício, um dos entraves à recuperação, manteve-se intacto. Segundo o BCE, o nível de empréstimos ao setor privado praticamente não mudou desde a virada do ano, permanecendo particularmente negativo para sociedades não financeiras (-1,9% em abril). O BCE enfatizou que “a dinâmica dos empréstimos fracos continua a refletir principalmente o atual estágio do ciclo de negócios, aumentando o risco de crédito e de ajustamento em curso dos balanços do setor financeiro e não financeiro”.

Nesse cenário, várias medidas, convencionais e não convencionais, estão no páreo e foram estudadas, segundo Draghi. A mais polêmica, um corte para o terreno negativo da taxa de depósitos das reservas excessivas dos bancos depositados no BC, foi novamente mencionada pelo presidente. Desta vez, inclusive, com mais ênfase. Se na reunião anterior Draghi disse que tal medida poderia ter consequências "severas" e "não premeditadas", mas que o banco central estudaria esses efeitos com "a cabeça aberta", agora assumiu que o BCE está “tecnicamente pronto” para realizar esse corte, ainda que tal movimento guarde “consequências inesperadas”. O mercado entendeu que esse corte tornou-se muito mais possível nas próximas reuniões. Resta saber o que é exatamente estar “tecnicamente pronto”...

Um programa voltado ao incentivo às pequenas e médias empresas (PME), tema bastante discutido pelos analistas usando como exemplo o programa britânico FLS (“Funding for Lending Scheme”), também não veio. Esperava-se alguma intervenção no mercado de títulos lastreados em ativos (ABS, na sigla em inglês) a fim de reanimar os empréstimos às PME, mas Draghi considerou que esta como outras ferramentas possíveis eram difíceis de implementar no momento.

De novo, o presidente do BCE saiu em defesa do chamado OMT, programa de compra de ativos no mercado secundário, como o grande divisor de águas da crise. Embora nunca acionado, o OMT foi, de fato, responsável pela descompressão dos yields das dívidas dos países que estão no centro da crise. Draghi disse que não só os mercados europeus, mas os mercados mundiais ficaram mais estáveis. Foi uma resposta ao julgamento que o OMT sofrerá por um tribunal alemão na próxima semana, por considerá-lo ilegal. Esse fato e as críticas acerca do preço que a Alemanha eventualmente pagaria pelos desequilíbrios financeiros da região do euro (notória no sistema de compensação Target 2) foi respondida pela informação de que 60% dos empréstimos feitos aos bancos em dezembro de 2011, via o programa LTRO, já foram reembolsados.

Enfim, perguntado se os bancos centrais são responsáveis pela volatilidade do mercado, Draghi disse o BCE não é, mas decisões que podem ser tomadas nos próximos meses estão de fato aumentando a tensão no mercado. Resumo da ópera: a culpa é do Fed.

Mervyn King termina mandato sem mudanças na política

Na última reunião presidida por Mervyn King, o Banco da Inglaterra manteve a taxa de juros em 0,5% ao ano e o volume do programa de compras de ativos em 375 bilhões de libras. Esse resultado era amplamente esperado face à transição no comando da instituição que se dará no próximo mês.

A taxa de juros atingiu este, que é o menor nível histórico, em março de 2009, no auge da crise americana. Sob o comando de King, o Banco da Inglaterra avaliou que a política monetária pouco poderia fazer para impulsionar a economia naquele momento, fazendo com que o comitê de política monetária (MPC) anunciasse seu programa de compras de ativos de 200 bilhões de libras, a maior parte da dívida do governo do Reino Unido (Gilts). O programa seria ampliado mais três vezes diante do recrudescimento da crise na zona do euro: em outubro de 2011 (75 bilhões de libras), em fevereiro de 2012 (50 bilhões de libras) e em julho de 2012 (50 bilhões de libras). Também em julho de 2012, foi anunciado o “Funding for Lending Scheme (FLS)”, um programa que objetiva incrementar a concessão de empréstimos para a economia real do Reino Unido, que posteriormente foi prorrogado até janeiro de 2015.

A carreira de Mervyn King no Banco da Inglaterra começou em 1991 como economista-chefe e diretor não executivo. Em 1997 passou a ser membro do comitê de política monetária (MPC) sendo alçado à presidência do MPC em julho de 2003. Será substituído pelo canadense Mark Carney, atual presidente do Banco do Canadá e ex-executivo da área de investimentos do Goldman Sachs.

Muitas mudanças são esperadas a partir da posse de Carney, inclusive um aumento substancial no volume de títulos públicos (Gilts) comprados no âmbito do programa. King, nos últimos meses deu sinais de que apoia a ideia ao ser um dos membros do comitê a votar pela ampliação de 25 bilhões de libras, juntamente com os diretores Paul Fisher e David Miles, portanto um terço do total de membros votantes do banco central. Sua posição, explícita em sua última entrevista à rede “Sky News” em 20 de maio é clara: “é preciso fazer mais pela economia”, acrescentando que a recuperação insinuada em indicadores recentes — como os índices de gerentes de compras (PMI) e mesmo o resultado do PIB do primeiro trimestre (0,3%) — “é apenas modesta e nós certamente não podemos estar satisfeitos com isso”. Apesar da revisão das projeções para o Produto Interno Bruto levemente para cima nos próximos anos, o BC britânico reiterou, no último relatório de inflação, que a recuperação prevista será fraca para os padrões históricos.

Outra questão que vem balizando as expectativas por mudanças no arcabouço de política monetária a partir da posse de Carney é a resistência da inflação acima da meta de 2%, embora tenha havido alguma descompressão dos índices nos meses recentes. Ainda assim, o CPI gira em 2,4%, o que impede, em tese, grandes voos de flexibilização monetária em função do regime de metas de inflação. Mas Carney é, sabidamente, defensor de mais flexibilidade na condução do regime de metas em um ambiente de rigidez inflacionária no sentido de não haver prejuízo exagerado à atividade econômica. Mudanças, então, podem mesmo vir em breve, como a instituição de uma meta para o PIB nominal, uma das apostas mais cotadas entre os analistas.

E faz sentido quando se recorda que em abril, na apresentação o orçamento de 2013, o ministro da finanças George Osborne, sugeriu que o Banco da Inglaterra discutisse mudanças no arcabouço da política monetária e que tais propostas fossem publicadas no relatório de inflação de agosto. Entre suas propostas, está a adoção de "parâmetros" (forward guidance) de indicadores econômicos na orientação da política monetária, ou seja, a instituição de um mandato duplo para o BC.

Outras hipóteses aventadas foram definir metas para o hiato do produto, o PIB real ou PIB nominal.

Em linhas gerais, o que Osborne propôs a Carney — e há certa convicção que este foi consultado na ocasião — é a instituição de um mandato duplo para o Banco da Inglaterra, nos moldes do Federal Reserve. A conferir.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Análise: Votorantim Cimentos chega à bolsa com competição em alta no país

A Votorantim Cimentos, líder brasileira no país, já tem data marcada para lançar suas ações em bolsa neste mês, no dia 20, em uma megaoperação que poderá render até R$ 10 bilhões. Será a primeira empresa do setor no mercado de capitais.

Chega no momento em que a indústria cimenteira nacional vive seu melhor momento: em menos de uma década dobrou de tamanho, crescendo a taxas de dois dígitos em alguns anos, puxada pelo boom imobiliário, por obras de infraestrutura, industriais e comerciais e pela oferta de crédito e aumento da renda.

O Brasil saltou de uma posição que variava de décimo a oitavo maior fabricante de cimento mundial para o quarto maior mercado global, atrás apenas de China e Índia e colado nos Estados Unidos. O consumo do país neste ano vai superar a marca de 70 milhões de toneladas e até 2016 pode beirar 80 milhões de toneladas.

Isso gerou um novo cenário de competição para a companhia controlada pelo grupo Votorantim, da família Ermírio de Moraes. Seus concorrentes não serão mais apenas os tradicionais grupos João Santos, Camargo Corrêa, Atalla, (Ciplan), Soeicom (atual Liz), Tupi e as multinacionais suíça Holcim e francesa Lafarge.

Além da siderúrgica CSN, que entrou nessa atividade em 2009, nomes desconhecidos como Apodi, Mizu, Supremo, CPX Brasil, Petribu, BRC, Cementos La Unión, Sanave e Cimento Bufalo surgiram do nada. Alguns até existiam, sem expressão, e de repente ganharam visibilidade. Estão espalhados do Sul ao Norte do país e apareceram na esteira do aumento da demanda e da interiorização da economia a partir de 2006.

Nordeste, Centro-Oeste e Norte foram as regiões que tiveram maior aumento de consumo nos últimos anos, embora o Sudeste ainda domine quase metade (46%) de todo o cimento vendido no país. Foi para essas novas fronteiras que se dirigiram a maioria dos novos investimentos para atender a demanda que surgiu e substituir importações, sejam “internas”, principalmente do Sudeste, e do exterior.

Essa expansão atraiu gente de outros setores. A CSN é um bom exemplo disso, mas contou com uma vantagem que poucos detinham: matéria-prima. É dona de jazidas de calcário e um subproduto importante na mistura, a escória oriunda da produção de aço. Outros estão acreditando no setor, caso da Cerâmica Elizabeth, da gigante da construção pesada Queiroz Galvão e do grupo cearense M. Dias Branco, forte na indústria de alimentos.

Essa onda de crescimento do consumo também trouxe de volta, com um apetite aguçado, os Brennand, tradicional família pernambucana que se desfez de várias fábricas de cimento nos anos 90 em plena crise da indústria no país.

Entre os novos players se destacam a Mizu, sediada em Mogi das Cruzes (SP) e que pertence ao grupo Polimix, de concreto. Já tem cinco fábricas no país, uma em parceria com a Votorantim o Rio Grande do Norte. A Cimento Apodi é um investimento de Ivens Dias Branco, com sócios, no Ceará, onde já tem duas instalações de produção.

A Supremo Cimento, de Pomerode (SC), saiu de uma pequena moagem na cidade de origem e partiu para uma grande fábrica no Paraná. Em 2011, para levar avante esse plano, vendeu metade do capital para o grupo português Secil/Semapa.

Ricardo Brennand, um dos ramos da família, voltou com duas fábricas: uma já em operação em Sete Lagoas (MG) e outra em construção na Paraíba. Outro ramo, de Cornélio Brennand, se associou à Queiroz Galvão em projetos na Bahia e no Maranhão.

Há um amplo leque de projetos de novas fábricas e de projetos de expansão e um número similar de planos de intenções anunciados por diversos investidores. Boa parte já está em andamento para sair do papel entre este ano e 2015. Se tudo for concretizado, o país vai ultrapassar uma capacidade de produção de 120 milhões de toneladas por ano em 2016. Isso representa crescimento de 50% sobre as atuais 82 milhões de toneladas.

Segundo executivos e dirigentes do setor, a indústria tem de trabalhar com excedente de capacidade de pelo menos 20% sobre o consumo anual, pois há picos de demanda em certas épocas do ano. Hoje, essa marca está no limite.

Por isso, e com base em investimentos em curso por diversos grupos, eles avaliam que o país terá um parque instalado com mais de cem fábricas e uma capacidade entre 100 milhões e 110 milhões de toneladas ao ano em 2015.

No período de 2006 a 2013 foram construídas 20 novas unidades industriais e atualmente cerca de dez fábricas encontram-se em instalação no país, sem contar retomadas de unidades paralisadas nos anos de crise, até 2004, e diversos projetos de modernização e expansão de unidades existentes.

O Brasil conta hoje com 16 grupos em atuação, com a gestão de 30 empresas. Nas Américas, só perde em número de grupos fabricantes para os EUA, com 27. Em outras partes do mundo, só para Itália, Índia e obviamente para a China, que faz 1,8 bilhão de toneladas de cimento por ano.

Emergentes se preparam, mas fim de QE nos EUA pode não estar tão próximo

Sem grandes dados macroeconômicos que amparem uma aposta de muitas fichas no fim do chamado “quantitative easing (QE)” nos Estados Unidos no curtíssimo prazo, o mercado segue reagindo como se fosse esse mesmo o cenário irrefutável.

Desde a publicação da ata do comitê de política monetária em 22 de maio, precedida pelo comentado discurso do presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, o ambiente foi de “sell-off” de ações, especialmente na América Latina, valorização do dólar mundialmente e alguma alta dos treasuries americanos.

Nesse ambiente de busca pelo dólar, países exportadores de commodities como Brasil e Austrália, que mantiveram o discurso de receio contra a valorização excessiva de suas moedas, agora migram para uma posição de preocupação com o movimento inverso, embora isso seja mais claro em terras brasileiras.

Foi “emblemática” a fala do diretor de política monetária do Banco Central, Aldo Mendes, dando conta de que a tendência de valorização do dólar (na constatação de uma tendência de recuperação da economia americana) só seria preocupante se não fosse acompanhada pelas demais moedas dos países emergentes. Mas, antes dessecenário se confirmar (ou não), o governo pôs foi o fim à tributação de 6% de IOF sobre aplicações de investidores estrangeiros em renda fixa no país, quando o dólar batia R$ 2,11, tendo alta de 7,1% em maio. Na Austrália, a moeda sofreu desvalorização de 5% no mês passado, embora o dólar australiano permaneça ainda acima de sua média dos últimos 20 anos.

Outras ações poderão vir, no que tange o comportamento das moedas, se o movimento de valorização do dólar se mantiver por mais tempo, mas parece cedo para acreditar que a economia americana esteja pronta para andar com suas próprias pernas e, dessa forma, faz sentido acreditar que a injeção de dinheiro pelo Fed ainda tenha sobrevida por mais alguns meses, ainda que o passo seja reduzido nas compras de títulos hipotecários (MBS), como se especula.

Mas não era para ser mesmo assim?

Chama atenção o fato de que a divisão de opiniões dentre do banco central americano quanto aos custos e benefícios do QE e, de modo análogo, aos riscos de mantê-lo por muito mais tempo, esteja sendo objeto de tanta volatilidade, ou melhor, de uma volatilidade com “cara de novidade”. Isso porque, há meses, tal dissidência é comum e notória entre os participantes do Fomc, o que era visível em discursos e nos documentos oficiais do banco central.

Ademais, há apenas seis meses as metas quantitativas (nível de desemprego e inflação) para a orientação da política monetária foram anunciadas. O Fed, repetidamente, deixou claro que mudanças na política de comunicação objetivam preparar o mercado e evitar uma volatilidade extremada.

Então, de duas, uma. Ou o Fed não acertou a comunicação ou o mercado está reagindo exacerbadamente. Quando se olha o comportamento do retorno do título de 10 anos desde a ata do Fomc, o movimento é, sim, de alta. Mas calma lá. Subiu de 1,9% para 2,1% desde então. Não parece que neste mercado as crenças são de desembarque do QE no próximo porto.

Pode-se argumentar mais e mais que os indicadores-chave mantêm-se em tendência de melhora. O desemprego vem caindo. Com boa ajuda do efeito estatístico positivo da redução da população economicamente ativa, mas caiu.

Ainda assim, a taxa está um ponto percentual acima do desejado pelo Fed. O núcleo da inflação (PCE), por sua vez, permanece consideravelmente abaixo da meta de 2%. No mais, o reforço da política fiscal, pedra fundamental na construção da recuperação desde o início da crise, perdeu a capacidade de empurrar a atividade. Isto posto, resta o banco central como salvador da pátria. Até porque ela não será, com certeza, salva pela economia global. A zona do euro continua em maus lençóis e se discutem medidas pontuais para dar suporte à recuperação e até mesmo ações totalmente não convencionais por parte do BCE, como um corte de juros para o terreno negativo.

Com a China em desaceleração e na espera de sinais positivos da política de Shinzo Abe no Japão, restam poucos motores externos advindos das economias centrais, se é que eles existem agora.

O Fed pode, claro, estar gerando a próxima bolha de ativos financeiros. O tamanho de seu balanço é sempre lembrado como uma bomba-relógio. Mas pouco disso virou crédito, virou dinheiro nas mãos do público, como mostram os agregados monetários mais amplos – como no caso da zona do euro.

Há que se perguntar também o que seria da economia se o BC não tivesse agido como agiu. E esse é um bom argumento para imaginar que uma saída prematura da política altamente acomodatícia talvez seja o maior risco da conjuntura a essa altura dos acontecimentos. Depois de cinco anos de QE, o Fed não esperaria mais alguns meses para ter certeza de que chegou a hora de voltar à normalidade?

Se depender dos dados divulgados hoje nos EUA, Fed não deve reduzir QE no curto prazo


Dois dados divulgados nesta quarta-feira nos Estados Unidos mostram um crescimento modesto em áreas fundamentais da economia: a atividade do segmento de serviços e as contratações no setor privado do país. A criação mais suave de emprego durante a primavera [no hemisfério norte] é reflexo dos cortes de gastos e do aumento de impostos instituídos pelo governo americano este ano e, se depender dos números de hoje, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) não deve desacelerar o programa de compra de bônus na próxima reunião, marcada para os dias 18 e 19 de junho.

Pela manhã, a processadora de folhas de pagamento ADP informou que o setor privado dos EUA criou, em termos líquidos, 135 mil postos de trabalho em maio. O resultado veio abaixo da previsão dos analistas, que era de geração de 170 mil vagas. A maior parte dos novos empregos veio do setor de serviços, que acrescentou 138 mil vagas no mês, enquanto as contratações na indústria caíram de novo. Dessa vez houve perda de 6 mil vagas. O relatório da ADP costuma servir de termômetro para o levantamento feito pelo governo, que inclui a criação de vagas nos setores público e privado, o chamado payroll. O payroll será divulgado nesta sexta-feira (7).

Os indicadores referentes ao mercado de trabalho são bastante acompanhados pelos investidores porque eles, juntamente com outros dados relevantes, servem de base para as decisões de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central americano).

Entretanto, se depender dos números de hoje, o banco central do país não deve começar a retirar estímulos no curto prazo, já que a atividade do segmento de serviços também não apresentou um avanço expressivo.

O índice dos gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) para o setor de serviços, medido pelo Instituto para a Gestão da Oferta (ISM), subiu de 53,1 pontos em abril para 53,7 pontos em maio. A previsão de analistas era de 53,5. O resultado do subíndice de emprego, que caiu de 52 para 50,1 pontos entre os dois meses, chamou atenção. Foi o pior resultado desde julho de 2012.

A fraca contratação reflete incerteza dos empresários sobre o cenário econômico no longo prazo.

Além disso, estamos vendo uma relação entre os dois indicadores. Se examinarmos a relação entre o subíndice de emprego do PMI de serviços e as contratações no setor privado nos últimos 15 anos, uma leitura de 50,1 pontos sugere que o crescimento do número de vagas do setor privado ficou logo abaixo de 100 mil.

A força do dólar

De repente, o dólar ganha força. Aprecia-se contra quase todas as moedas do mundo, sem discriminação de localização, tamanho ou grau de desenvolvimento. Pode parecer aleatório; às vezes movimentos rápidos de câmbio não têm o “fio terra” nos fundamentos econômicos. Mas, nesse caso, há uma razão fundamental para o movimento: os EUA parecem sair da estagnação econômica (pós-crise do Lehman) antes do resto do mundo. A economia brasileira terá de navegar por essa nova fase da economia mundial, que ainda está no início.

Economias que crescem mais tendem a apreciar mais também. Em parte, porque a taxa de juros começa a subir, antecipando uma normalização das políticas de estímulos adotadas durante a estagnação. A lógica é se a recuperação está a caminho, já em breve serão retirados os estímulos excepcionais, incluindo os juros anormalmente baixos. Os fluxos de capital mudam de direção, buscando não somente retornos maiores vindos dos juros mais elevados, mas também do crescimento maior. Com os influxos, vem a apreciação do câmbio.

Os EUA crescem a uma taxa em torno de 2%, e as perspectivas são de que o crescimento acelere para 2,5% no ano que vem. O desemprego está caindo e deve alcançar a taxa de 6,5%, marco para o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) avaliar subir os juros mais rapidamente que o esperado. As últimas comunicações do Fed sugerem que o mais tardar em setembro (vários membros do comitê de política monetária – FOMC, na sigla em inglês – sugerem antes) serão retirados gradualmente os estímulos monetários atuais. O setor privado nos EUA está com força para crescer mais depois que as empresas e, agora, as famílias reduziram seu endividamento. Os sinais são claros, o crédito voltou a fluir, os preços das casas tornaram a subir. O que ainda deve limitar o crescimento são os ajustes – via aumento de imposto ou redução de gastos – para reduzir o endividamento público, que deve se prolongar por exigir decisões políticas complicadas.

O contraste é grande com a Europa. A zona do euro permanece em recessão com queda do PIB de 0,22% no primeiro trimestre, e espera-se outra queda de 0,10% no segundo trimestre. Tudo indica que será o segundo ano de crescimento negativo na região. O Banco Central Europeu (BCE) continua preocupado e sinalizou que se a situação piorar pode considerar definir taxas de juros negativas nos depósitos que recebe dos bancos. Riscos ainda existem, os ajustes ainda não estão concluídos nos países periféricos da Europa, e nem iniciados na França, próximo foco de atenção dos mercados.

A política monetária no Japão está indo na contramão da americana. Os estímulos monetários estão sendo aumentados de forma acelerada, se implementados como divulgados serão maiores. A consequência desse contraste entre as políticas é uma depreciação forte do yen em relação ao dólar.

Os emergentes eram o último bastião do crescimento. Após uma recuperação rápida pós-Lehman Brothers, as economias sustentaram taxas elevadas de crescimento nos últimos anos. Mas a desaceleração está agora se espalhando, como se fosse uma reação defasada, em câmera lenta, à estagnação das economias maduras. A China desacelera para um crescimento perto de 7,5%, de quase 12% no seu auge. O resto da Ásia emergente está indo no mesmo caminho. As economias emergentes do Leste Europeu já desaceleraram há mais tempo, em função da crise europeia dos últimos anos. Na América Latina diversas economias resistiram bem à desaceleração global (Chile e Peru, por exemplo), mas mostram sinais de desaceleração.

É nesse ambiente econômico de recessão na Europa e desaceleração nos emergentes que a economia americana destoa com perspectivas de crescimento maior e queda mais rápida no desemprego. Isso faz com que as moedas e os juros no mundo equilibrem-se de forma a permitir que a recuperação americana seja transmitida para o resto do mundo (com mais depreciação e menos juros).

Como os outros países vão reagir à força do dólar? Muitos devem permitir que suas moedas depreciem, assim como deixaram que apreciassem no caso inverso (EUA mais fraco e o resto do mundo, principalmente os emergentes, mais forte). A princípio uma depreciação das outras moedas em um ambiente de fraco crescimento é bem-vinda, desde que a inflação não seja um problema também (não é, na grande maioria dos casos).

Muitas vezes a tentação é focar no palpável, definir um valor ideal para a taxa de câmbio, tarefa que sempre parece mais ao alcance do que possível. Bastaria escolher o valor correto para o câmbio para resolver várias mazelas da economia. Mas o câmbio responde ele mesmo a outros fatores. Há razões fundamentais que movem a economia e seus preços (i.e, taxa de câmbio) como produtividade, educação, inovação e um conjunto de instituições que geram estabilidade e incentivos para o investimento (e a postergação do consumo), assim como para a busca incessante da eficiência. Na ausência de mudanças nos fundamentos, os governos têm pouco controle sobre o câmbio no longo prazo.

No curto prazo (e mesmo no médio prazo), movimentos excessivos de mercado justificam intervenções no câmbio, principalmente quando a percepção é de ausência de relação com os fundamentos da economia. Mas, no caso atual, a força do dólar parece bem calcada, desde que a economia americana de fato continue recuperando-se mais rapidamente do que o resto do mundo.

No Brasil, a inflação mais elevada (e perto da banda superior da meta) é uma consideração adicional que torna mais complexa a avaliação de política, podendo inclusive justificar uma intervenção maior no câmbio no curto prazo, enquanto se aguardam possíveis mudanças nas políticas macroprudenciais (retirada de IOF?) e o efeito do aumento recente de juros na inflação. A economia brasileira terá de navegar por mais essa fase da economia mundial.