quarta-feira, 5 de junho de 2013

Emergentes se preparam, mas fim de QE nos EUA pode não estar tão próximo

Sem grandes dados macroeconômicos que amparem uma aposta de muitas fichas no fim do chamado “quantitative easing (QE)” nos Estados Unidos no curtíssimo prazo, o mercado segue reagindo como se fosse esse mesmo o cenário irrefutável.

Desde a publicação da ata do comitê de política monetária em 22 de maio, precedida pelo comentado discurso do presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, o ambiente foi de “sell-off” de ações, especialmente na América Latina, valorização do dólar mundialmente e alguma alta dos treasuries americanos.

Nesse ambiente de busca pelo dólar, países exportadores de commodities como Brasil e Austrália, que mantiveram o discurso de receio contra a valorização excessiva de suas moedas, agora migram para uma posição de preocupação com o movimento inverso, embora isso seja mais claro em terras brasileiras.

Foi “emblemática” a fala do diretor de política monetária do Banco Central, Aldo Mendes, dando conta de que a tendência de valorização do dólar (na constatação de uma tendência de recuperação da economia americana) só seria preocupante se não fosse acompanhada pelas demais moedas dos países emergentes. Mas, antes dessecenário se confirmar (ou não), o governo pôs foi o fim à tributação de 6% de IOF sobre aplicações de investidores estrangeiros em renda fixa no país, quando o dólar batia R$ 2,11, tendo alta de 7,1% em maio. Na Austrália, a moeda sofreu desvalorização de 5% no mês passado, embora o dólar australiano permaneça ainda acima de sua média dos últimos 20 anos.

Outras ações poderão vir, no que tange o comportamento das moedas, se o movimento de valorização do dólar se mantiver por mais tempo, mas parece cedo para acreditar que a economia americana esteja pronta para andar com suas próprias pernas e, dessa forma, faz sentido acreditar que a injeção de dinheiro pelo Fed ainda tenha sobrevida por mais alguns meses, ainda que o passo seja reduzido nas compras de títulos hipotecários (MBS), como se especula.

Mas não era para ser mesmo assim?

Chama atenção o fato de que a divisão de opiniões dentre do banco central americano quanto aos custos e benefícios do QE e, de modo análogo, aos riscos de mantê-lo por muito mais tempo, esteja sendo objeto de tanta volatilidade, ou melhor, de uma volatilidade com “cara de novidade”. Isso porque, há meses, tal dissidência é comum e notória entre os participantes do Fomc, o que era visível em discursos e nos documentos oficiais do banco central.

Ademais, há apenas seis meses as metas quantitativas (nível de desemprego e inflação) para a orientação da política monetária foram anunciadas. O Fed, repetidamente, deixou claro que mudanças na política de comunicação objetivam preparar o mercado e evitar uma volatilidade extremada.

Então, de duas, uma. Ou o Fed não acertou a comunicação ou o mercado está reagindo exacerbadamente. Quando se olha o comportamento do retorno do título de 10 anos desde a ata do Fomc, o movimento é, sim, de alta. Mas calma lá. Subiu de 1,9% para 2,1% desde então. Não parece que neste mercado as crenças são de desembarque do QE no próximo porto.

Pode-se argumentar mais e mais que os indicadores-chave mantêm-se em tendência de melhora. O desemprego vem caindo. Com boa ajuda do efeito estatístico positivo da redução da população economicamente ativa, mas caiu.

Ainda assim, a taxa está um ponto percentual acima do desejado pelo Fed. O núcleo da inflação (PCE), por sua vez, permanece consideravelmente abaixo da meta de 2%. No mais, o reforço da política fiscal, pedra fundamental na construção da recuperação desde o início da crise, perdeu a capacidade de empurrar a atividade. Isto posto, resta o banco central como salvador da pátria. Até porque ela não será, com certeza, salva pela economia global. A zona do euro continua em maus lençóis e se discutem medidas pontuais para dar suporte à recuperação e até mesmo ações totalmente não convencionais por parte do BCE, como um corte de juros para o terreno negativo.

Com a China em desaceleração e na espera de sinais positivos da política de Shinzo Abe no Japão, restam poucos motores externos advindos das economias centrais, se é que eles existem agora.

O Fed pode, claro, estar gerando a próxima bolha de ativos financeiros. O tamanho de seu balanço é sempre lembrado como uma bomba-relógio. Mas pouco disso virou crédito, virou dinheiro nas mãos do público, como mostram os agregados monetários mais amplos – como no caso da zona do euro.

Há que se perguntar também o que seria da economia se o BC não tivesse agido como agiu. E esse é um bom argumento para imaginar que uma saída prematura da política altamente acomodatícia talvez seja o maior risco da conjuntura a essa altura dos acontecimentos. Depois de cinco anos de QE, o Fed não esperaria mais alguns meses para ter certeza de que chegou a hora de voltar à normalidade?