O Banco Central Europeu (BCE) manteve a taxa básica de juros (refi) em 0,5% ao ano, a taxa de empréstimos a bancos comerciais ("marginal lending facility") em 1,0% e a taxa de depósitos em zero. Essa decisão era amplamente esperada após a redução de 25 pontos base na taxa básica e de 50 pontos base na taxa de empréstimos realizadas na reunião anterior. Das 12 instituições financeiras estrangeiras pesquisadas, 11 tinham a avaliação de que seria prematuro o anúncio de novas medidas hoje, posição ratificada pela fala do presidente da instituição, Mario Draghi, na conferência de imprensa.
Uma novidade interessante que pode vir, insinuada pelo presidente do BCE, é que o comitê de política monetária está “refletindo” sobre a instituição de um “forward guidance”, ou seja, uma orientação (temporal, qualitativa ou quantitativa) para a política monetária. Tal mudança, na opinião de casas consultadas como Morgan Stanley e o BNP Paribas, poderia reforçar a orientação da política, algo que já vem sendo feito sutilmente por frases como “como "o BCE manterá a política monetária acomodatícia pelo tempo que for necessário”. Mas não houve detalhamento algum dessa perspectiva.
Por isso e por muito mais, as revisões das projeções para o PIB e inflação foram acompanhas com lupa. O crescimento esperado piorou neste ano (de -0,5% para -0,6%), mas melhorou para 2014 (de 0,8% para 1,1%). A variação de preços, por sua vez, foi reduzida de 1,6% para 1,4% em 2013 e manteve-se em 1,3% no ano que vem.
No cômputo geral, o cenário prospectivo desenhado pelo BCE dá conta de um crescimento pífio e uma inflação bem abaixo da meta de 2%, o que, por si só, coloca combustível na fogueira das apostas por mais medidas de flexibilização. O diagnóstico de quase paralisia no setor creditício, um dos entraves à recuperação, manteve-se intacto. Segundo o BCE, o nível de empréstimos ao setor privado praticamente não mudou desde a virada do ano, permanecendo particularmente negativo para sociedades não financeiras (-1,9% em abril). O BCE enfatizou que “a dinâmica dos empréstimos fracos continua a refletir principalmente o atual estágio do ciclo de negócios, aumentando o risco de crédito e de ajustamento em curso dos balanços do setor financeiro e não financeiro”.
Nesse cenário, várias medidas, convencionais e não convencionais, estão no páreo e foram estudadas, segundo Draghi. A mais polêmica, um corte para o terreno negativo da taxa de depósitos das reservas excessivas dos bancos depositados no BC, foi novamente mencionada pelo presidente. Desta vez, inclusive, com mais ênfase. Se na reunião anterior Draghi disse que tal medida poderia ter consequências "severas" e "não premeditadas", mas que o banco central estudaria esses efeitos com "a cabeça aberta", agora assumiu que o BCE está “tecnicamente pronto” para realizar esse corte, ainda que tal movimento guarde “consequências inesperadas”. O mercado entendeu que esse corte tornou-se muito mais possível nas próximas reuniões. Resta saber o que é exatamente estar “tecnicamente pronto”...
Um programa voltado ao incentivo às pequenas e médias empresas (PME), tema bastante discutido pelos analistas usando como exemplo o programa britânico FLS (“Funding for Lending Scheme”), também não veio. Esperava-se alguma intervenção no mercado de títulos lastreados em ativos (ABS, na sigla em inglês) a fim de reanimar os empréstimos às PME, mas Draghi considerou que esta como outras ferramentas possíveis eram difíceis de implementar no momento.
De novo, o presidente do BCE saiu em defesa do chamado OMT, programa de compra de ativos no mercado secundário, como o grande divisor de águas da crise. Embora nunca acionado, o OMT foi, de fato, responsável pela descompressão dos yields das dívidas dos países que estão no centro da crise. Draghi disse que não só os mercados europeus, mas os mercados mundiais ficaram mais estáveis. Foi uma resposta ao julgamento que o OMT sofrerá por um tribunal alemão na próxima semana, por considerá-lo ilegal. Esse fato e as críticas acerca do preço que a Alemanha eventualmente pagaria pelos desequilíbrios financeiros da região do euro (notória no sistema de compensação Target 2) foi respondida pela informação de que 60% dos empréstimos feitos aos bancos em dezembro de 2011, via o programa LTRO, já foram reembolsados.
Enfim, perguntado se os bancos centrais são responsáveis pela volatilidade do mercado, Draghi disse o BCE não é, mas decisões que podem ser tomadas nos próximos meses estão de fato aumentando a tensão no mercado. Resumo da ópera: a culpa é do Fed.