quarta-feira, 5 de junho de 2013

Análise: Votorantim Cimentos chega à bolsa com competição em alta no país

A Votorantim Cimentos, líder brasileira no país, já tem data marcada para lançar suas ações em bolsa neste mês, no dia 20, em uma megaoperação que poderá render até R$ 10 bilhões. Será a primeira empresa do setor no mercado de capitais.

Chega no momento em que a indústria cimenteira nacional vive seu melhor momento: em menos de uma década dobrou de tamanho, crescendo a taxas de dois dígitos em alguns anos, puxada pelo boom imobiliário, por obras de infraestrutura, industriais e comerciais e pela oferta de crédito e aumento da renda.

O Brasil saltou de uma posição que variava de décimo a oitavo maior fabricante de cimento mundial para o quarto maior mercado global, atrás apenas de China e Índia e colado nos Estados Unidos. O consumo do país neste ano vai superar a marca de 70 milhões de toneladas e até 2016 pode beirar 80 milhões de toneladas.

Isso gerou um novo cenário de competição para a companhia controlada pelo grupo Votorantim, da família Ermírio de Moraes. Seus concorrentes não serão mais apenas os tradicionais grupos João Santos, Camargo Corrêa, Atalla, (Ciplan), Soeicom (atual Liz), Tupi e as multinacionais suíça Holcim e francesa Lafarge.

Além da siderúrgica CSN, que entrou nessa atividade em 2009, nomes desconhecidos como Apodi, Mizu, Supremo, CPX Brasil, Petribu, BRC, Cementos La Unión, Sanave e Cimento Bufalo surgiram do nada. Alguns até existiam, sem expressão, e de repente ganharam visibilidade. Estão espalhados do Sul ao Norte do país e apareceram na esteira do aumento da demanda e da interiorização da economia a partir de 2006.

Nordeste, Centro-Oeste e Norte foram as regiões que tiveram maior aumento de consumo nos últimos anos, embora o Sudeste ainda domine quase metade (46%) de todo o cimento vendido no país. Foi para essas novas fronteiras que se dirigiram a maioria dos novos investimentos para atender a demanda que surgiu e substituir importações, sejam “internas”, principalmente do Sudeste, e do exterior.

Essa expansão atraiu gente de outros setores. A CSN é um bom exemplo disso, mas contou com uma vantagem que poucos detinham: matéria-prima. É dona de jazidas de calcário e um subproduto importante na mistura, a escória oriunda da produção de aço. Outros estão acreditando no setor, caso da Cerâmica Elizabeth, da gigante da construção pesada Queiroz Galvão e do grupo cearense M. Dias Branco, forte na indústria de alimentos.

Essa onda de crescimento do consumo também trouxe de volta, com um apetite aguçado, os Brennand, tradicional família pernambucana que se desfez de várias fábricas de cimento nos anos 90 em plena crise da indústria no país.

Entre os novos players se destacam a Mizu, sediada em Mogi das Cruzes (SP) e que pertence ao grupo Polimix, de concreto. Já tem cinco fábricas no país, uma em parceria com a Votorantim o Rio Grande do Norte. A Cimento Apodi é um investimento de Ivens Dias Branco, com sócios, no Ceará, onde já tem duas instalações de produção.

A Supremo Cimento, de Pomerode (SC), saiu de uma pequena moagem na cidade de origem e partiu para uma grande fábrica no Paraná. Em 2011, para levar avante esse plano, vendeu metade do capital para o grupo português Secil/Semapa.

Ricardo Brennand, um dos ramos da família, voltou com duas fábricas: uma já em operação em Sete Lagoas (MG) e outra em construção na Paraíba. Outro ramo, de Cornélio Brennand, se associou à Queiroz Galvão em projetos na Bahia e no Maranhão.

Há um amplo leque de projetos de novas fábricas e de projetos de expansão e um número similar de planos de intenções anunciados por diversos investidores. Boa parte já está em andamento para sair do papel entre este ano e 2015. Se tudo for concretizado, o país vai ultrapassar uma capacidade de produção de 120 milhões de toneladas por ano em 2016. Isso representa crescimento de 50% sobre as atuais 82 milhões de toneladas.

Segundo executivos e dirigentes do setor, a indústria tem de trabalhar com excedente de capacidade de pelo menos 20% sobre o consumo anual, pois há picos de demanda em certas épocas do ano. Hoje, essa marca está no limite.

Por isso, e com base em investimentos em curso por diversos grupos, eles avaliam que o país terá um parque instalado com mais de cem fábricas e uma capacidade entre 100 milhões e 110 milhões de toneladas ao ano em 2015.

No período de 2006 a 2013 foram construídas 20 novas unidades industriais e atualmente cerca de dez fábricas encontram-se em instalação no país, sem contar retomadas de unidades paralisadas nos anos de crise, até 2004, e diversos projetos de modernização e expansão de unidades existentes.

O Brasil conta hoje com 16 grupos em atuação, com a gestão de 30 empresas. Nas Américas, só perde em número de grupos fabricantes para os EUA, com 27. Em outras partes do mundo, só para Itália, Índia e obviamente para a China, que faz 1,8 bilhão de toneladas de cimento por ano.